um dia, com nuvens, escuro, chuvoso, acabo de chegar da escola a casa, deixo a minha mala e dossier na secretária, passeio o meu cão, e deito-me. deito-me e é aí que sou assombrada por um mar negro de pensamentos, e começa o sentimento de fervor que me tira o sono, que consome cada órgão do meu corpo.
daí começa a luta de pensamentos, a luta infernal para pensar no dia passado, no dia anterior, tudo menos o que me assombra a memoria.
não aguentado os nervos, a inquietação, dou o grito do desespero, levanto-me deixando tudo para trás saio de casa, sem chaves, sem absolutamente nada.
saio a rua e não vejo ninguém sem ser eu mesma.
nesse momento saio de dentro de mim, e observo-me de fora, observo o meu eu, o meu desespero, a minha tristeza, observo a minha pessoa, as minhas lágrimas a escorrerem, a luta interior visível a olho nu.
volto a entrar dentro de mim, e começo a minha longa caminhada, sinceramente não tenho nenhum local em mente, visto que o sitio onde estou não é o que me agrada, ato involuntário, começo a andar para o sitio oposto a minha casa, ando, ando, ando, o que para mim, horas. quando dou por mim, estou num sitio perfeitamente magnifico.
estarei a sonhar? pela primeira vez em muitos meses, senti-me bem, feliz por estar em algum lugar.
olho a meu redor e tudo é perfeito, vejo campos cheios de flores, árvores, um grande lago, animais simpáticos. até ao momento não vi sinal de nenhuma pessoa.
é aí que penso que este lugar é bom demais para a vida que andava a tomar, a tristeza que andava a viver. afinal onde estava eu? paraíso? seria esse o lugar que eu tanto queria? que eu tanto procurava?
começo a andar a procura de alguém, de algum sinal de vida humana.
até que me deparo outra vez, comigo.
desta vez não estou em pé, nem sentada, estou deitada no chão, de olhos fechados, de corpo mole.
será aquilo o que estarei a pensar?
terei eu realmente morrido?
porque outro motivo estaria ali, e aqui ao mesmo tempo? não faz sentido nenhum.
até que num abrir e fechar de olhos me lembro de tudo.
eu havia andado tanto que perdera as forças, havia pedido tanto pela morte que acabei por desmaiar. estarei no meio? entre a vida e a morte?
eu não quero morrer! não agora, tenho 17 anos!
eu tenho gente que me ama, não as posso deixar já, assim... não sou egoísta a esse ponto, já fui uma vez, e não quero sê-lo agora. como voltei eu da última vez?
eu resolverei os meus problemas, porque na verdade é nisso que a vida se baseia, em resolver o que não está resolvido, é esquecer o que não pode ser MUDADO, é passar fases da vida, é seguir em frente, esquecer o medo e a tortura, é aprender com os erros, e não os repetir, para mágoas futuras. evitar o mal, preservar o bem.
estar em paz e harmonia com nós próprios.
havemos sempre de sofrer, chorar, magoar o próximo, magoarmo-nos a nós, o importante é seguirmos em frente, e sabermos perdoar.
saber dizer adeus ás mágoas, e olá à felicidade.
sim, depois disto, acordei de novo, levantei-me, ergui o queixo, e regressei a casa.
deitei-me e superei os meus medos, os meus tormentos, o meu desespero.
catarina valentim.
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